01. CANTO DAS TRÊS RAÇAS
(Paulo Sérgio Pinheiro com Mauro Duarte)
Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Negro entoou um canto de revolta
pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se
refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.
E de guerra em paz, de paz em
guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.
E ecoa noite e dia: é
ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador...
Esse canto que devia ser um canto
de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor
02. CORDILHEIRA
(Paulo Sérgio Pinheiro com Sueli Costa)
Eu quero ter a sensação das
cordilheiras
Desabando sobre as flores
inocentes e rasteiras
Eu quero ver a procissão dos
suicidas
Caminhando para a morte pelo bem
de nossas vidas
Eu quero crer na solução dos
evangelhos
Obrigando os nossos moços ao poder
dos nossos velhos
Eu quero ler o coração dos
comandantes
Condenando os seus soldados pela
orgia dos farsantes
Eu quero apenas ser cruel
naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e
destruir sua semente
Eu quero apenas ser cruel
naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e
destruir sua semente
Eu quero ter a sensação das
cordilheiras
Desabando sobre as flores
inocentes e rasteiras
Eu quero ser da legião dos grandes
mitos
Transformando a juventude num
exército de aflitos
Eu quero ver a ascensão de
Iscariotes
E no sábado um Jesus crucificado
em cada poste
Eu quero ler na sagração dos
estandartes
Uma frase escrita a fogo pelo
punho de deus Marte
Desabando sobre as flores
Caminhando para a morte
Obrigando os nossos moços
Condenando os seus soldados
Transformando a juventude
Um Jesus crucificado
Eu quero ter a sensação das
cordilheiras.
03. Desenredo
(Paulo Sérgio Pinheiro com Dori Caymmi)
Por toda terra que passo me
espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio de vida feita
ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas do teu desejo
O mundo todo marcado à ferro, fogo
e desprezo
A vida é o fio do tempo, a morte o
fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tranças do teu segredo
Ê Minas, ê Minas, é hora de
partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando, o homem
fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando, a
vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do seu cabelo
Ê Minas, ê Minas, é hora de
partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe...
04. ESTRELA DA TERRA
(Paulo Sérgio Pinheiro com Dori Caymmi)
Por mais que haja dor e agonia
Por mais que haja treva sombria
Existe uma luz que é meu guia
Fincada no azul da amplidão
É o claro da estrela do dia
Sobre a terra da promissão.
Por mais que a canção faça alarde
Por mais que o cristão se acovarde
Existe uma chama que arde
E que não se apaga mais não
É o brilho da estrela da tarde
Na boina do meu capitão.
E a gente
Rebenta do peito a corrente
Com a ponta da lâmina ardente
Da estrela na palma da mão.
Por mais que a paixão não se
afoite
Por mais que minh'alma se amoite
Existe um clarão que é um açoite
Mais forte e maior que a paixão
É o raio da estrela do noite
Cravada no meu coração.
E a gente
Já prepara o chão pra semente
Pra vinda da estrela cadente
Que vai florescer no sertão.
Igual toda lenda se encerra
Virá um cavaleiro de guerra
Cantando no alto da serra
Montado no seu alazão
Trazendo a estrela da terra
Sinal de uma nova estação
05. EVANGELHO
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Dori Caymmi)
Eta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos
Eta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas
Eta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?
Eta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva
06. MORDAÇA
(Paulo Sérgio Pinheiro com Eduardo Gudin)
Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e
passiva
O mesmo alento que nos conduziu
debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação
negativa
É provável que o tempo faça a
ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se
impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção
sobreviva
E a felicidade amordace essa dor
secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar
07. NA VOLTA QUE O MUNDO DÁ
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Vicente Barreto)
Um dia eu senti um desejo profundo
De me aventurar nesse mundo
Pra ver onde o mundo vai dar
Saí do meu canto na beira do rio
E fui prum convés de navio
Seguindo pros rumos do mar
Pisei muito porto de língua
estrangeira
Amei muita moça solteira
Fiz muita cantiga por lá
Varei cordilheira, geleira e
deserto
O mundo pra mim ficou perto
E a terra parou de rodar
Com o tempo
Foi dando uma coisa em meu peito
Um aperto difícil da gente
explicar
Saudade, não sei bem de quê
Tristeza, não sei bem por quê
Vontade até sem querer de chorar
Angústia de não se entender
Um tédio que a gente nem crê
Anseio de tudo esquecer e voltar
Juntei os meus troços num saco de
pano
Telegrafei pro meu mano
Dizendo que ia chegar
Agora aprendi por que o mundo dá
volta
Quanto mais a gente se solta
Mais fica no mesmo lugar
08. NAVIO FANTASMA
(Paulo Sérgio Pinheiro com Francis Hime)
Os dias ainda suporto
Às noites é que eu me condeno
De madrugada eu acordo
Sangrando canções de veneno.
O sol dos teus olhos me mata
E a lua dos meus te apavora
Derrama-se o ouro na prata
Inventa-se o sangue da aurora.
Marés de saudade já cedo
Batendo nas praias vazias
E o meu coração nos rochedos
Morrendo em marés de agonia.
E assim são as águas da vida
E o mar é um mistério que pasma
Tu és a cidade perdida
E eu sou o navio fantasma.
09. O DIA EM QUE O MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL
(Paulo Sérgio Pinheiro com Wilson das Neves)
O dia em que o morro descer e não
for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o
desfile final
na entrada rajada de fogos pra
quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha,
granada e fuzil
(é a guerra civil)
No dia em que o morro descer e não
for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o
ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma
quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade
partida
no dia em que o couro comer na
avenida
se o morro descer e não for
carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e
favela
mostrando a miséria sobre a
passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só
bateria
quem vai ser jurado? Ninguém
gostaria
que desfile assim não vai ter nada
igual
Não tem órgão oficial, nem
governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa
briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse
povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for
carnaval.
10. PESADELO
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Maurício Tapajós)
Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso
pune
Você vem me agarra, alguém vem me
solta
Você vai na marra, ela um dia
volta
E se a força é tua ela um dia é
nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o
dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo
outro
Você me prende vivo, eu escapo
morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí
Olha aí
Olha aí
11. VELHO ARVOREDO
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Hélio Delmiro)
Eu te esqueci muito cedo
Pelo tempo que passou
Tal como um velho arvoredo
Que o vento não derrubou
Tronco mudado em rochedo
Pedra transformada em flor
E eu fui ficando sozinho no pó do
caminho
Me desenganando sofrendo e
chorando
E mantendo em segredo
Essa minha ilusão
Que me escapou
De entre os dedos pra não sei
Que outras mãos eu me tornei o
arremedo
De tudo aquilo que eu não sou
Mas, eu jamais retrocedo o que
passou, passou
Já superei mas, só eu sei o mesmo
eu jamais serei
Feito a madeira, o machado
inclinando
Eu por fora estou cicatrizando
E por dentro sangrando
Afastado do medo mas, sozinho
tal como o velho arvoredo
Que não serve ao tempo nem ao
lenhador
E o vento abandonou
12. VENTO BRAVO
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Edu Lobo)
Era um cerco bravo, era um
palmeiral,
Limite do escravo entre o bem e o
mal
Era a lei da coroa imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o vento vira e do vendaval
Surge o vento bravo, o vento bravo
Era argola, ferro, chibata e pau
Era a morte, o medo, o rancor e o
mal
Era a lei da Coroa Imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o tempo muda e do temporal
Surge o vento bravo, o vento bravo
Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar
Se acalmar
Vento virador no clarão do mar
Vem sem raça e cor, quem viver
verá
Vindo a viração vai se anunciar
Na sua voragem, quem vai ficar
Quando a palma verde se avermelhar
É o vento bravo
O vento bravo
Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar
Que não vai se acalmar
Que não vai se acalmar
Que não vai se acalmar
Que não vai se acalmar.
13. VIAGEM
(Paulo Sérgio Pinheiro com
João de Aquino)
Oh! Tristeza me desculpe, estou de
malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona na garupa
leve
Do vento macio que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fim do
mar
Vamos visitar a estrela da manhã
raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida querendo
brincar
Senta nessa nuvem clara, minha
poesia
Anda se prepara, traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar
Olha quantas aves brancas, minha
poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que o
dia
Fez todo bordado de raio de Sol
Oh! Poesia me ajude, vou colher
avencas
Lírios, rosas, dálias pelos campos
verdes
Que você batiza de jardins do céu
Mas pode ficar tranquila, minha
poesia
Pois nós voltaremos numa estrela
guia
Num clarão de Lua quando serenar
Ou talvez até quem sabe nós só
voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar
14. VONTADE DE CHORAR
(Paulo Sérgio Pinheiro com
Ivor Lancelotti)
Tudo que restou do nosso amor
São folhas que o vento soprou
E se perderam pelo ar
E as recordações me enchem de dor
Pois todo o fim de um grande amor
Me dá vontade de chorar
Todo verso triste que eu puser numa canção
É o meu coração que chora
E eu fiquei assim quando você
Sem dizer adeus foi indo embora
Pela minha voz e meu olhar todos verão
Como eu vivo triste agora
E eu não posso mais com a minha dor
Porque qualquer canção de amor, me dá vontade de chorar