sexta-feira, 8 de maio de 2026

As canções escolhidas de Paulo Sérgio Pinheiro para o Vestibular - UNICAMP - 2027/2028/2029

Conheça as 14 Canções escolhidas de Paulo Sérgio Pinheiro para os Vestibulares - UNICAMP - 2027/2028/2029

01. CANTO DAS TRÊS RAÇAS

(Paulo Sérgio Pinheiro com Mauro Duarte)

 

Ninguém ouviu um soluçar de dor

No canto do Brasil.

Um lamento triste sempre ecoou

Desde que o índio guerreiro

Foi pro cativeiro e de lá cantou.

 

Negro entoou um canto de revolta pelos ares

No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.

Fora a luta dos inconfidentes

Pela quebra das correntes.

Nada adiantou.

 

E de guerra em paz, de paz em guerra,

Todo o povo dessa terra

Quando pode cantar,

Canta de dor.

 

E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.

Ai, mas que agonia

O canto do trabalhador...

Esse canto que devia ser um canto de alegria

Soa apenas como um soluçar de dor

 


 

02. CORDILHEIRA

(Paulo Sérgio Pinheiro com Sueli Costa)

 

Eu quero ter a sensação das cordilheiras

Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras

Eu quero ver a procissão dos suicidas

Caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas

 

Eu quero crer na solução dos evangelhos

Obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos

Eu quero ler o coração dos comandantes

Condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes

 

Eu quero apenas ser cruel naturalmente

E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente

Eu quero apenas ser cruel naturalmente

E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente

 

Eu quero ter a sensação das cordilheiras

Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras

Eu quero ser da legião dos grandes mitos

Transformando a juventude num exército de aflitos

 

Eu quero ver a ascensão de Iscariotes

E no sábado um Jesus crucificado em cada poste

Eu quero ler na sagração dos estandartes

Uma frase escrita a fogo pelo punho de deus Marte

 

Desabando sobre as flores

Caminhando para a morte

Obrigando os nossos moços

Condenando os seus soldados

Transformando a juventude

Um Jesus crucificado

Eu quero ter a sensação das cordilheiras.


 

03. Desenredo

(Paulo Sérgio Pinheiro com Dori Caymmi)

 

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo

A morte tece seu fio de vida feita ao avesso

O olhar que prende anda solto

O olhar que solta anda preso

 

Mas quando eu chego eu me enredo

Nas tramas do teu desejo

 

O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo

A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo

O olhar que assusta anda morto

O olhar que avisa anda aceso

Mas quando eu chego eu me perco

Nas tranças do teu segredo

 

Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou

Vou-me embora pra bem longe

 

A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço

A morte que a vida anda armando, a vida que a morte anda tendo

O olhar mais fraco anda afoito

O olhar mais forte, indefeso

Mas quando eu chego eu me enrosco

Nas cordas do seu cabelo

 

Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou

Vou-me embora pra bem longe...

 

 

04. ESTRELA DA TERRA

(Paulo Sérgio Pinheiro com Dori Caymmi)

 

Por mais que haja dor e agonia

Por mais que haja treva sombria

Existe uma luz que é meu guia

Fincada no azul da amplidão

É o claro da estrela do dia

Sobre a terra da promissão.

 

Por mais que a canção faça alarde

Por mais que o cristão se acovarde

Existe uma chama que arde

E que não se apaga mais não

É o brilho da estrela da tarde

Na boina do meu capitão.

 

E a gente

Rebenta do peito a corrente

Com a ponta da lâmina ardente

Da estrela na palma da mão.

 

Por mais que a paixão não se afoite

Por mais que minh'alma se amoite

Existe um clarão que é um açoite

Mais forte e maior que a paixão

É o raio da estrela do noite

Cravada no meu coração.

 

E a gente

Já prepara o chão pra semente

Pra vinda da estrela cadente

Que vai florescer no sertão.

 

Igual toda lenda se encerra

Virá um cavaleiro de guerra

Cantando no alto da serra

Montado no seu alazão

Trazendo a estrela da terra

Sinal de uma nova estação

 


05. EVANGELHO

(Paulo Sérgio Pinheiro com Dori Caymmi)

 

Eta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos

Eta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas

Eta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?

Eta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva

 



06. MORDAÇA

(Paulo Sérgio Pinheiro com Eduardo Gudin)

 

Tudo o que mais nos uniu separou

Tudo que tudo exigiu renegou

Da mesma forma que quis recusou

O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou

Tudo que tudo assumiu desandou

Tudo que se construiu desabou

O que faz invencível a ação negativa

 

É provável que o tempo faça a ilusão recuar

Pois tudo é instável e irregular

E de repente o furor volta

O interior todo se revolta

E faz nossa força se agigantar

 

Mas só se a vida fluir sem se opor

Mas só se o tempo seguir sem se impor

Mas só se for seja lá como for

O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular

Pois tudo no fundo é tão singular

É resistir ao inexorável

O coração fica insuperável

E pode em vida imortalizar

 

 


 


07. NA VOLTA QUE O MUNDO DÁ

(Paulo Sérgio Pinheiro com Vicente Barreto)

 

Um dia eu senti um desejo profundo

De me aventurar nesse mundo

Pra ver onde o mundo vai dar

 

Saí do meu canto na beira do rio

E fui prum convés de navio

Seguindo pros rumos do mar

 

Pisei muito porto de língua estrangeira

Amei muita moça solteira

Fiz muita cantiga por lá

 

Varei cordilheira, geleira e deserto

O mundo pra mim ficou perto

E a terra parou de rodar

 

Com o tempo

Foi dando uma coisa em meu peito

Um aperto difícil da gente explicar

 

Saudade, não sei bem de quê

Tristeza, não sei bem por quê

Vontade até sem querer de chorar

 

Angústia de não se entender

Um tédio que a gente nem crê

Anseio de tudo esquecer e voltar

 

Juntei os meus troços num saco de pano

Telegrafei pro meu mano

Dizendo que ia chegar

 

Agora aprendi por que o mundo dá volta

Quanto mais a gente se solta

Mais fica no mesmo lugar

 



08. NAVIO FANTASMA

(Paulo Sérgio Pinheiro com Francis Hime)

 

Os dias ainda suporto

Às noites é que eu me condeno

De madrugada eu acordo

Sangrando canções de veneno.

 

O sol dos teus olhos me mata

E a lua dos meus te apavora

Derrama-se o ouro na prata

Inventa-se o sangue da aurora.

 

Marés de saudade já cedo

Batendo nas praias vazias

E o meu coração nos rochedos

Morrendo em marés de agonia.

 

E assim são as águas da vida

E o mar é um mistério que pasma

Tu és a cidade perdida

E eu sou o navio fantasma.




09. O DIA EM QUE O MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL

(Paulo Sérgio Pinheiro com Wilson das Neves)

 

O dia em que o morro descer e não for carnaval

ninguém vai ficar pra assistir o desfile final

na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu

vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil

(é a guerra civil)

 

No dia em que o morro descer e não for carnaval

não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral

e cada uma ala da escola será uma quadrilha

a evolução já vai ser de guerrilha

e a alegoria um tremendo arsenal

o tema do enredo vai ser a cidade partida

no dia em que o couro comer na avenida

se o morro descer e não for carnaval

 

O povo virá de cortiço, alagado e favela

mostrando a miséria sobre a passarela

sem a fantasia que sai no jornal

vai ser uma única escola, uma só bateria

quem vai ser jurado? Ninguém gostaria

que desfile assim não vai ter nada igual

 

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga

nem autoridade que compre essa briga

ninguém sabe a força desse pessoal

melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria

senão todo mundo vai sambar no dia

em que o morro descer e não for carnaval.



 

 

10. PESADELO

(Paulo Sérgio Pinheiro com Maurício Tapajós)

 

Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

 

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

 

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

 

De repente olha eu de novo

 

Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

 

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã

O braço do Cristo, horizonte

Abraça o dia de amanhã

 

Olha aí

Olha aí

Olha aí

 


 

11. VELHO ARVOREDO

(Paulo Sérgio Pinheiro com Hélio Delmiro)

 

Eu te esqueci muito cedo

Pelo tempo que passou

Tal como um velho arvoredo

Que o vento não derrubou

 

Tronco mudado em rochedo

Pedra transformada em flor

E eu fui ficando sozinho no pó do caminho

Me desenganando sofrendo e chorando

 

E mantendo em segredo

Essa minha ilusão

Que me escapou

De entre os dedos pra não sei

Que outras mãos eu me tornei o arremedo

De tudo aquilo que eu não sou

 

Mas, eu jamais retrocedo o que passou, passou

Já superei mas, só eu sei o mesmo eu jamais serei

Feito a madeira, o machado inclinando

Eu por fora estou cicatrizando

E por dentro sangrando

Afastado do medo mas, sozinho

tal como o velho arvoredo

 

Que não serve ao tempo nem ao lenhador

E o vento abandonou





12. VENTO BRAVO

(Paulo Sérgio Pinheiro com Edu Lobo)

 

Era um cerco bravo, era um palmeiral,

Limite do escravo entre o bem e o mal

Era a lei da coroa imperial

Calmaria negra de pantanal

Mas o vento vira e do vendaval

Surge o vento bravo, o vento bravo

 

Era argola, ferro, chibata e pau

Era a morte, o medo, o rancor e o mal

Era a lei da Coroa Imperial

Calmaria negra de pantanal

Mas o tempo muda e do temporal

Surge o vento bravo, o vento bravo

 

Como um sangue novo

Como um grito no ar

Correnteza de rio

Que não vai se acalmar

Se acalmar

 

Vento virador no clarão do mar

Vem sem raça e cor, quem viver verá

Vindo a viração vai se anunciar

Na sua voragem, quem vai ficar

Quando a palma verde se avermelhar

É o vento bravo

O vento bravo

 

Como um sangue novo

Como um grito no ar

Correnteza de rio

Que não vai se acalmar

Que não vai se acalmar

Que não vai se acalmar

Que não vai se acalmar

Que não vai se acalmar.

 



13. VIAGEM

(Paulo Sérgio Pinheiro com João de Aquino)

 

Oh! Tristeza me desculpe, estou de malas prontas

Hoje a poesia veio ao meu encontro

Já raiou o dia, vamos viajar

 

Vamos indo de carona na garupa leve

Do vento macio que vem caminhando

Desde muito longe, lá do fim do mar

 

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida querendo brincar

 

Senta nessa nuvem clara, minha poesia

Anda se prepara, traz uma cantiga

Vamos espalhando música no ar

 

Olha quantas aves brancas, minha poesia

Dançam nossa valsa pelo céu que o dia

Fez todo bordado de raio de Sol

 

Oh! Poesia me ajude, vou colher avencas

Lírios, rosas, dálias pelos campos verdes

Que você batiza de jardins do céu

 

Mas pode ficar tranquila, minha poesia

Pois nós voltaremos numa estrela guia

Num clarão de Lua quando serenar

 

Ou talvez até quem sabe nós só voltaremos

No cavalo baio, no alazão da noite

Cujo nome é raio, raio de luar





14. VONTADE DE CHORAR

(Paulo Sérgio Pinheiro com Ivor Lancelotti)

 

Tudo que restou do nosso amor

São folhas que o vento soprou

E se perderam pelo ar

 

E as recordações me enchem de dor

Pois todo o fim de um grande amor

Me dá vontade de chorar

 

Todo verso triste que eu puser numa canção

É o meu coração que chora

E eu fiquei assim quando você

Sem dizer adeus foi indo embora

 

Pela minha voz e meu olhar todos verão

Como eu vivo triste agora

E eu não posso mais com a minha dor

Porque qualquer canção de amor, me dá vontade de chorar







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